
Da borda ao núcleo, a infra-estrutura mudou muito nos últimos dez anos para chegar a um patamar compatível com as aplicações móveis, um marco na história do setor.
Usa-se a expressão "comer pelas bordas" como forma de indicar uma abordagem suave para se chegar ao verdadeiro objetivo. Com as redes de telefonia fixa, ocorreu exatamente o contrário: as mudanças mais profundas começaram pelo núcleo (core) até chegarem às bordas, numa verdadeira analogia de células que evoluem. Se...
Da borda ao núcleo, a infra-estrutura mudou muito nos últimos dez anos para chegar a um patamar compatível com as aplicações móveis, um marco na história do setor. Usa-se a expressão "comer pelas bordas" como forma de indicar uma abordagem suave para se chegar ao verdadeiro objetivo. Com as redes de telefonia fixa, ocorreu exatamente o contrário: as mudanças mais profundas começaram pelo núcleo (core) até chegarem às bordas, numa verdadeira analogia de células que evoluem. Sem trocadilhos com a rede celular, as malhas fixas, nos últimos dez anos, saíram do estágio de amebas (analógicas) para células T (digitais), capazes de "pensar" tráfego, acesso, controle, sistemas, aplicativos e serviços. Nos últimos dez anos a evolução tecnológica passou por estágios importantes, que ficarão gravados para sempre na história do setor. O ciclo evolutivo varia porque numa rede devem ser consideradas várias camadas: os dispositivos (modems, terminais), acessos (núcleo, bordas), controle (tráfego), sistemas (segurança, billing) e aplicativos (serviços de voz, banda larga,TV). Assim, uma determinada camada avança para uma nova tecnologia em dois ou três anos. ao passo que outra fatia da rede evolui num ciclo de quatro a cinco anos. Ou. ainda, demora ate dez anos para ser com-pletamente trocada. Centrais Por Sérgio Damasceno
Numa sucessão de siglas, o processo evolutivo das redes fixas passa por vários estágios: digitalizaçao (TDM), nova geracão de redes (NGN), apropriação do protocolo da rede mundial de computadores (IP) para, finalmente, chegar à igualdade com o serviço móvel (IMS).
"A borda era considerada uma área secundária. Com a agregação do tráfego e necessidade de qualidade de serviço (QoS). gestão de assinantes e segurança, a borda ganha importância", diz, o diretor de negócios e tecnologia da Promon, Jorge Leonel. Segundo ele, antes da NGN, as centrais de voz eram monolíticas. Com os media gateways e softswitches, as redes começam a agregar novos aplicativos. A grande motivação para a adoção do IMS é a unificação dos controles para novos aplicativos e a orquestração dessas aplicações. "Acredito que a consolidação do IMS demore entre cinco a dez anos para se sedimentar", afirma.
Mesmo assim - e ainda com centrais de comutação analógicas em operação no País -. o salto foi grande nos últimos dez a 15 anos. A telefonia móvel começou timidamente apenas em 1993 e. ainda em 1997, ver um usuário com um aparelho ao ouvido era uma raridade. Com o domínio dos serviços de voz - e de dados como o antigo RDSI. com banda larga (à época) de 64 Kbps -, as redes de telefonia fixa não tinham concorrência. A partir da telefonia móvel e de outros players e soluções que surgiram, o serviço telefónico fixo comutado começou a emergir do modo analógio para urn mundo inteligente.
A introdução maciça da NGN na rede fixa brasileira não aconteceu como os futurólogos previam, porque houve uma série de fatores conjugados, segundo o presidente do CPqD, Hélio Graciosa: em 2001/2002, houve o estouro da bolha da internet e o consequente esfriamento do setor; os planejadores fizeram investimento pesado em TDM para a digitalização e não fariam uma rede nova. "A NGN apr veita o investimento feito até então pá: colocar novas funcionalidades na rede TDM", diz Graciosa.
O presidente do CPqD diz que, no mundo, nos últimos sete anos, 35% dos investimentos feitos nas redes foram voltados para a digitalização.
Para o diretor de gestão de inovação do CPqD, António Carlos Bordeaux, uma das tecnologias que não vingou foi o WLL(adotado pela Vésper - em São Paulo e na região I e pela GVT, no início de sua operação). "A WLL daria flexibilidade e baratearia os serviços de acesso. O desastre é que tentaram usar o mesmo padrão da telefonia móvel na rede fixa e, quando tentaram adaptar ficou mais caro. E ainda não oferecia acesso à internet e ao fax. O preço ao usuário era menor, mas a disponibilidade e a qualidade eram muito piores", afirma Bordeaux. A bola da vez agora é o WiMAX para a disseminação da banda larga.
"Não se pode dizer que a NGN não vingou", afirma o sénior manager de carrier networks da Nortel, Cássio Garcia. "No Brasil, as operadoras investiram muito em TDM. Quando a NGN chegou não havia necessidade ou conveniência para migrar naquele momento. Agora, já não se instalam novos nós de redes TDM", diz. "Algumas centrais têm mais de uma década e até quase duas décadas. A operadora tem que substituí-las por obsolescência e pêlos altos custos de operação (Opex). A evolução para redes NGN tem que ser compatível com o IMS", afirma o vice-pre-sidente de redes da Ericsson, Rogério Loripe. Segundo o executivo, a evolução das redes está ancorada em conveniência, aumento da capacidade e maior eficiência. São esses os motivos que levam as operadoras a investir na rede.
A NEC instalou mais de 12 milhões de linhas fixas em centrais TDM nas quatro concessionárias - Brasil Telecom, Telefónica, Telemar e Embratel. Há cerca de dois anos, iniciou-se o processo de migração de TDM para NGN com softswitches e media gateways nessas redes. Todas as funcionalidades da TDM têm que ser incorporadas pelos softswitches. "Para isto, investimos US$ 17 milhões num centro de desenvolvimento de migração de redes TDM para NGN, com uma solução que é pré-IMS", diz o presidente da NEC, Paulo Castelo Branco. "A migração de TDM para NGN não ocorre tanto pêlos serviços, e sim pela premência na redução de custos operacionais, na dificuldade de peças de reposição e no desenvolvimento de softwares para equipamentos de mais de dez anos", explica Castelo Branco. O presidente da NEC diz que as redes convergidas (fixas-móveis), baseadas em IMS, garantirão níveis de segurança semelhantes às redes TDM, com robustez e imunidade a ataques.
Tendênica
" A tendência, no futuro, é que não haja distinção entre redes fixas e móveis", concorda o diretor comercial da Alcatel-Lucent, Carlos Brito, para quem a evolução da rede fixa ocorre sobre três aspectos: tecnológico, regulatório e de mercado. No âmbito tecnológico, Brito destaca que não há gargalo para que as redes dêem o próximo salto ( serviços como o IPTV, por exemplo). " O único gargalo é o regulatório", diz. As operadoras apostaram que na evoluçao da rede porque precisaram enfrentar vários níveis de concorrência- como acontece com as teles móveis, a TV a cabo e a demanda por bandas cada vez maiores. A isso se soma a convergência fixo-móvel, elemento que altera o quadro macroeconômico e competitivo das telecomunicações.
A indústria de telecomunicações, de modo geral, sempre buscou protocolos abertos para não ficar refém de sistemas proprietários, analisa o diretor técnico de produtos da Siemens, Tadeu Viana. Com a convergência, essa busca intensificou-se e foi criado o protocolo H323, a primeira tentativa do setor de fazer um protocolo para VoIP. Depois, surgiu o SIP, inicialmente um padrão apenas para o transporte de dados. Com o desenvolvimento do SIP, todos os fornecedores passaram a adotá-lo como padrão para as redes IP. As redes IP e o SIP se disseminaram porque o custo/benefício é bom e o investidor, quando aposta na nova tecnologia, quer saber se isso trará ou não retorno sobre o investimento, aponta o diretor da Siemens.
Conforme avança a proximidade entre fixas e móveis, as redes se entrelaçam e, em breve, os fios (ou ondas) de ambas formarão uma única malha, imperceptível para o usuário. Da era analógica ao IMS, as redes fixas foram do núcleo às bordas e desenharam novas arqui-teturas para atender às demandas do consumidor, reduzir custos e desenvolver novas aplicações. A convergência indica que as redes serão unicelulares e que o processo que começou pelas bordas atingiu todos os níveis, onde a topologia fixa e móvel se converterá numa só célula.
Fonte: Teletime
Data: 30/06/2007