"Estamos formando um novo Vale do Silício, só que de maneira planejada", diz o físico Rogério César de Cerqueira Leite, um dos idealizadores do Pólo de Alta Tecnologia de Campinas; incubadoras mantêm atualmente 35 empresas em "gestação"
A Tech Chron, uma "recém-nascida" empresa campineira de alta tecnologia, deve iniciar em 2005 a fabricação em série do seu primeiro produto, um cromátografo de gás para análises químicas. Utilizado na indústria petroquímica para controlar a produção de derivados de petróleo, o equipamento atualmente é importado dos Estados Unidos, Europa ou Japão. Custa entre US$ 15 mil e US$ 30 mil, dependendo do grau de sofisticação.
O êxito da Tech Chron serve para mostrar a importância das incubadoras na consolidação do mercado de alta tecnologia em Campinas. A empresa precisou de apenas seis meses de "gestação" na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp, a Incamp, para viabilizar a entrada no mercado e obter patentes nos EUA, Alemanha, França, Holanda e Inglaterra, além do Brasil.
"É muito difícil entrar direto no mercado e conseguir sobreviver", diz o engenheiro mecânico Valter Matos, um dos proprietários da Tech Chron. Os outros sócios são Kenneth e Carol Collins, casal de professores aposentados do Instituto de Química da Unicamp. A Incamp é a única incubadora do país instalada em uma universidade pública. Inaugurada há um ano, abriga oito empresas em fase de crescimento.
Campinas conta com outras incubadoras de empresas de alta tecnologia: o Núcleo de Apoio ao Desenvolvimento de Empresas (Nade) e a incubadora da Sociedade para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex). Juntas, as duas estão gestando 35 empresas de tecnologia. "Estamos formando um novo Vale do Silício, só que de maneira planejada", diz o físico Rogério César de Cerqueira Leite, um dos idealizadores do Pólo de Alta Tecnologia de Campinas.
Embora a primeira incubadora da cidade tenha surgido ainda na década de 70, dentro da Unicamp, a multiplicação delas nos anos 90 faz parte de uma política de desenvolvimento iniciada pelo ex-prefeito José Roberto Magalhães Teixeira (PSDB), morto em 1997. A idéia, de acordo com o Cerqueira Leite, era canalizar a efervescência científica para o crescimento econômico.
O resultado é uma grande variedade de negócios baseados em alta tecnologia, que vão desde a produção de sofisticados equipamentos eletrônicos, passando por softwares voltados para genômica, até serviços que usam tecnologia de última geração para transformar lixo doméstico em adubo orgânico.
Cerqueira Leite foi um dos responsáveis pela criação, em 1996, do Nade, primeira incubadora para empresas de alta tecnologia do país. Apesar de recente, a unidade, que funciona na Companhia de Desenvolvimento do Pólo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec), está dando resultado. A incubadora diplomou a primeira "ninhada" em julho de 2001. Ao todo foram 18 empresas, que no ano passado faturaram cerca de R$ 20 milhões. Atualmente, outras 20 empresas estão em desenvolvimento. Entre elas, seis já estão na chamada fase de pós-incubação, que consiste num período extra para aquelas que já passaram dois anos incubadas e estão prestes a encarar o mercado sozinhas. Juntas, faturam cerca de R$ 1,8 milhão por ano.
Algumas empresas incubadas no Nade produzem serviços e equipamentos que até pouco tempo tinham de ser importados. É o caso da Elemed, dirigida pelo engenheiro eletrônico Climério dos Santos Vieira. Especializada em eletrônica, a empresa é uma das poucas no país capaz de fazer manutenção em receptores e transmissores de rádio via satélite. "No exterior, esse serviço sai por um preço até três vezes maior", diz Vieira.
A empresa também desenvolveu e já comercializa fechaduras eletrônicas computadorizadas para cofres, além de equipamentos médicos, como um eletrocardiógrafo, que deverá chegar ao mercado por R$ 2 mil, preço cinco vezes menor que o similar importado.
O sucesso das incubadoras campineiras atrai gente de outros Estados. O engenheiro eletricista Iron Daher, por exemplo, veio de Goiânia para abrigar sua empresa, a Griaule, na incubadora da Unicamp. A troca, segundo ele, foi necessária para que o negócio pudesse crescer dentro do "cluster" adequado. O "cluster" é uma aglomeração de empresas, que concorrem entre si, mas também se ajudam mutuamente. "Valeu a pena", comemora o empresário. Em dezembro do ano passado, depois de passar oito meses incubado, Daher lançou seu primeiro produto no mercado, o Rex2, um dispositivo de controle de acesso baseado no reconhecimento das impressões digitais. "Nossa tecnologia é inovadora, porque dispensa a digitação de senhas, exigida por outros dispositivos."
"O período de incubação é importante, porque ajuda a transformar conhecimento tecnológico em negócios rentáveis", observa o engenheiro agrícola Hélio Shimizu. "Muitos empreendedores dominam a tecnologia, mas não sabem como vender seus produtos." Depois de concluir o mestrado em 2001, na Unicamp, ele e mais três sócios decidiram abrir a Ecosigma, especializada em gestão de resíduos orgânicos. Incubada no Nade, a empresa já negocia um contrato com a prefeitura de Campinas para transformar parte do lixo doméstico em adubo orgânico. A expectativa é produzir 500 toneladas de composto por mês e alcançar um faturamento de até R$ 1 milhão por ano.
A vocação de pólo de inteligência de Campinas foi construída nos últimos 50 anos ao custo de muitos bilhões de dólares em equipamentos, como rodovias, aeroportos, universidades, centros de pesquisa, estrutura urbana, rede de ensino de qualidade e um pólo de serviços e comércio regional de grande potencial. Somada à posição geográfica favorável e à qualidade de vida, essa infra-estrutura qualifica Campinas como o cenário adequado para investimentos de grandes empresas na área de tecnologia.
Importantes companhias do setor, como IBM, HP, Lucent e Motorola mantêm unidades de produção na região metropolitana de Campinas. A fábrica da Lucent Technologies, por exemplo, que detém 50% do mercado brasileiro de equipamentos para centrais telefônicas, é um dos cinco centros de integração de sistemas da marca em todo o mundo.
Para abrigar empresas desse segmento, o município de Campinas implantou os condomínios de alta tecnologia, onde empresas se aglutinam em torno de interesses comuns, numa relação direta de uso de equipamentos e produtos. O pioneiro foi o Ciatec, criado pela prefeitura na década de 80. Surgiram depois outros, como o Techno Park, o Ciatec II e o condomínio IBM.
Embora tenham estrutura básica semelhante, os condomínios têm características distintas: o Ciatec promove integração entre as pesquisas e as empresas, e oferece incentivos, como isenção de IPTU e ISS. O condomínio da IBM trabalha no sistema de construção e locação de espaço. O Techno Park vende lotes para implantação de empresas.
O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) é outro marco no desenvolvimento de tecnologia em Campinas. Criado em 1976 pela Telebras para ser um centro de pesquisas para as empresas brasileiras de telefonia, transformou-se em fundação em 1998, após a privatização. O centro já desenvolveu centrais digitais, antenas, sistemas de transmissão digital, equipamentos de transmissão óptica, entre outros produtos, para operadoras de telefonia e fornecedores de equipamentos.
O CPqD ganhou fama mundial com o desenvolvimento do cartão telefônico, que conquistou também o mercado externo. "Estamos para fechar contrato com operadoras americanas", conta Antonio Carlos Bordeaux Rigo, diretor de gestão de inovação. Somente em fomento de pesquisa, o CPqD administra este ano mais de R$ 100 milhões.
Fonte: Valor Econômico - Ana Carolina Silveira, Carlos Tidei e Clayton Levy, para o Valor, de Campinas
23/4/2003