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Um panorama sobre as TICs – um dos motores do desenvolvimento mundial
Motor do desenvolvimento mundial. O usuário no centro das tecnologias. Nova dinâmica no processo de inovação. Esses e outros temas estão presentes no texto a seguir, de autoria do Vice-Presidente de Tecnologia do CPqD, Claudio Violato, apresentado durante a 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em maio de 2010, em Brasília.
As TICs e o desenvolvimento
Nas últimas décadas, as TICs vêm sendo um dos motores do desenvolvimento mundial, seja porque constituem importante e dinâmico setor da economia, seja porque são a base sobre a qual se desenvolvem quase todas as atividades da sociedade moderna. Nesse período, elas experimentaram um enorme desenvolvimento a partir da digitalização da infraestrutura e dos serviços de telecomunicações, que promoveu uma íntima aproximação dos mundos da informática e das telecomunicações, alterando profundamente a cultura deste último e disseminando seus efeitos para várias outras áreas da atividade econômica.
Ao observar como se deu esse desenvolvimento, verifica-se que a ciência e a tecnologia tiveram uma contribuição mútua no processo, sendo que a primeira gerou novas tecnologias e estas, por sua vez, estimularam e viabilizaram novos desenvolvimentos científicos. Ambas foram bastante marcadas pela questão das aplicações e pelo mercado, em um paradigma, pode-se dizer, de complementação das forças tecnológicas e de mercado, ou seja, do market pull e do technology push.
A Internet é um exemplo representativo dessa mútua contribuição. Ela não apenas surgiu por conta de uma demanda da comunidade de ciência e tecnologia, como também, posteriormente, seu potencial de aplicações proporcionou condições para um extraordinário desenvolvimento tecnológico nos mais diversos campos.
Outro aspecto que caracteriza o desenvolvimento das TICs está ligado à dinâmica do setor. O ciclo de vida dos produtos de TICs está cada vez mais curto, diferentemente de áreas mais tradicionais, como agricultura e transportes, que apresentam ciclo de vida dos produtos mais longo. Exemplo dessa situação são os aparelhos de telefonia celular, que são rapidamente substituídos nas prateleiras por modelos mais novos e considerados obsoletos poucos meses depois de lançados no mercado. Essa dinâmica permite o aparecimento de novos atores, exige retorno mais rápido do investimento e, por outro lado, cria novos modelos de negócio para explorar oportunidades que se desdobram continuamente.
Tecnologias centradas no usuário
Nos últimos anos, as TICs vêm se caracterizando pelo peso do usuário no processo de concepção dos produtos. Hoje, fala-se muito de user centric technologies, ou seja, tecnologias centradas na participação e na própria demanda do usuário como elemento estimulador de novas soluções e na criação de novos produtos.
Deve-se notar que, atualmente, as TICs não só permitem a comunicação entre seres humanos, como também a observação de novas possibilidades abertas pela comunicação entre máquinas e entre objetos (sensores e atuadores), constituindo o que se denomina "Internet das coisas", uma das visões da Internet do futuro. Aqui as interações entre humanos (H2H), entre máquinas (M2M) e, também, entre humanos e máquinas (H2M e M2H) passam a ter papel fundamental na evolução do ambiente do setor das telecomunicações. Nos últimos tempos, a incorporação de TICs nos mais variados produtos e essa possibilidade de comunicação criam oportunidades de renovação dos setores mais tradicionais.
Novo jeito de inovar
Essa evolução fez com que a própria dinâmica do processo de inovação nas telecomunicações fosse substancialmente alterada. Comparativamente, podemos dizer que, no passado, há 30 ou 40 anos, a atividade de P&D era centrada nos laboratórios das grandes operadoras. Hoje, após a quebra dos monopólios, ela se realiza principalmente nos fornecedores de equipamentos e de sistemas de software, bem como nos desenvolvedores de serviços. Ontem, o processo de inovação era, essencialmente, sequencial - as atividades de pesquisa eram seguidas de desenvolvimento, prototipagem, engenharia de produto, fabricação e comercialização. Hoje, essas fases se superpõem com grande interação entre as atividades de P&D, de engenharia e de mercado.
No passado, havia também o predomínio de padrões fechados e proprietários, e, embora a ITU elaborasse suas séries de recomendações técnicas, nada garantia que produtos de diferentes fabricantes, desenvolvidos de acordo com as mesmas recomendações técnicas, pudessem interoperar completamente. Atualmente, ao contrário, há uma exigência de padrões globais, interoperáveis, de fato, com interfaces abertas que possibilitam o desenvolvimento de novas aplicações. Antes, o sistema de inovação era fechado, com reduzido número de atores e com elevadas barreiras de entrada, em decorrência do alto investimento necessário à atividade de P&D. Hoje, o sistema de inovação é mais aberto, flexível e com menores barreiras de entrada. Isso fez com que, no passado, o processo de inovação fosse bastante lento, comparado à situação atual em que as inovações ocorrem de maneira mais rápida.
Três vetores do desenvolvimento tecnológico
Examinando a situação sob uma perspectiva tecnológica, é possível identificar três principais vetores de desenvolvimento: mobilidade, capacidade (banda larga) e tecnologias centradas no usuário. A mobilidade se mostrou, desde a introdução dos serviços de telefonia móvel celular, um atributo extremamente interessante e conveniente para o usuário, e é, na atualidade, um dos fatores determinantes do ritmo de demanda de inovação tecnológica.
O segundo grande vetor que estimula o desenvolvimento tecnológico é o da capacidade, da necessidade cada vez maior de banda larga transparente, sem restrições a qualquer tipo de mídia - voz, texto e, principalmente, vídeo.
O terceiro vetor, caracterizado pelas tecnologias centradas no usuário, demanda novos terminais e características de usabilidade e de segurança - exigidas para dar mais confiança ao usuário na utilização dos serviços de TICs.
As tecnologias habilitadoras, para atender a essas demandas, vão desde as tecnologias relacionadas à infraestrutura física de transporte, de acesso óptico e de acesso sem fio até as de terminais com a conectividade tão intensa quanto as plataformas baseadas no protocolo IP permitem, tornando emergentes questões de segurança, de middleware para adaptar as aplicações e os sistemas intensivos de software.
No vetor mobilidade, a tecnologia mais emblemática é a do acesso sem fio. No vetor capacidade, é a questão do acesso e do transporte óptico no núcleo da rede. No que diz respeito ao vetor tecnologias centradas no usuário, surge o software como principal família de tecnologias que tem evoluído para atender à flexibilidade exigida pelo usuário.
A realidade brasileira
No cenário brasileiro, é possível elencar várias realizações ocorridas nas últimas décadas com o grande amadurecimento científico e tecnológico. O País cresceu a partir de 1970 não só em termos de conhecimento científico - base científica - como também em desenvolvimento tecnológico, difundido enormemente. Observa-se, nessas décadas, a estruturação de grandes programas de formação de pessoal e de P&D que construíram competências nas diversas áreas. O Brasil possui, hoje, pessoas com bastante competência nessas áreas.
Em termos de instrumentos, o País criou, nos últimos 10 a 20 anos, um importante conjunto de instrumentos para o apoio à pesquisa e ao desenvolvimento, como, por exemplo, fundos setoriais, lei de informática, lei de inovação e mecanismos de subvenção, que constituem um arsenal, um portfólio de recursos que podem ser mobilizados para o desenvolvimento tecnológico.
Por outro lado, há grandes desafios, porque ainda é preciso criar uma cultura realmente voltada à inovação, especialmente no setor empresarial, em que ainda são tímidos os investimentos. A situação vem mudando, mas há, ainda, muito a ser realizado nessa área. O Brasil tem carência de engenheiros e técnicos de todos os níveis e perfis. Não se pode pretender alcançar um desenvolvimento sólido em TICs sem formar engenheiros em quantidade adequada.
Por fim, é preciso mencionar o peso da burocracia e do apego ao formalismo, que, incompatíveis com a natureza da atividade de P&D e inadequados à dinâmica do setor que exige respostas rápidas, garantindo a ágil passagem do laboratório ao mercado, faz com que, em muitos casos, os programas não sejam gerenciados de forma objetiva em termos de resultados.
Inúmeras oportunidades
No Brasil de hoje, existem inúmeras oportunidades para o desenvolvimento tecnológico em TICs. Alguns exemplos:
- A universalização do acesso banda larga à Internet. Nas últimas semanas, o governo federal lançou o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), uma excelente oportunidade a ser aproveitada visando estruturar ações nos setores acadêmico e empresarial voltadas à promoção da educação e da tecnologia no País. No contexto do PNBL, volta-se a falar sobre o poder de compra do Estado, mecanismo utilizado por todos os países desenvolvidos para fortalecer a indústria e criar riqueza e competitividade de seus setores empresariais. O Brasil pode lançar mão desse mecanismo para se inserir adequadamente num patamar de competitividade semelhante ao de outros países líderes do mundo.
- Economia diversificada e em crescimento. A economia brasileira, bastante diversificada, em franco crescimento e com elevado potencial de exportação, e as extensas dimensões territoriais do País criam oportunidades de desenvolvimento tecnológico local.
- Utilização das TICs em setores tradicionais. Existem inúmeras oportunidades de utilização das TICs na renovação de setores tradicionais como agricultura, transporte e energia. O Smart Grid - rede elétrica inteligente - pode ser considerado um fator estruturante ao desenvolvimento do País, porque busca renovar e introduzir um novo dinamismo na infraestrutura de energia elétrica dentro dos paradigmas que as TICs trouxeram. Os setores de agronegócio, de logística e de transporte também estão sendo transformados com o uso intensivo de recursos de TICs.
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