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Segunda, 26 de Abril de 2010 09:59

Pesquisadores do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) desenvolveram um programa para incluir deficientes e analfabetos no universo digital. A plataforma permite marcar consultas na rede municipal de saúde e acessar informações na Previdência Social.

Chamada Soluções de Telecomunicações para Inclusão Digital (STID), a ferramenta está sendo testada em telecentros nas cidades de Bastos e Santo Antônio de Posse, na Região Metropolitana de Campinas (RMC). As negociações para testes em Campinas estão em andamento.

A inclusão é o primeiro passo em direção à implantação do conceito de cidades digitais, um dos pilares de atuação do centro de pesquisa. "A banda larga é a infraestrutura do século 21 e o desafio é dar acesso a toda população", comenta o presidente do CPqD, Hélio Graciosa. O STID tem como principal objetivo incluir uma parcela da população que costuma ficar à margem dos programas.

Segundo os pesquisadores, o programa pode ser ajustado a vários tipos de aplicações, como caixas eletrônicos, internet banking e outros serviços públicos. "Todos os serviços disponíveis podem ser acessados através dessa plataforma digital", explica o gerente de marketing de produto, Amilton da Costa Lamas.

Antes de começar a usar a ferramenta, o usuário deve ir ao telecentro para fazer um cadastramento com suas informações e o tipo de deficiência que possui, para que a plataforma seja adaptada às suas condições de uso. A navegação é criada para facilitar o aprendizado. O usuário não precisa sequer fazer o login no sistema. Um mecanismo de reconhecimento facial verifica características, como a distância entre os olhos e o formato do rosto, para abrir o sistema. "O software se apresenta de forma a facilitar o uso", comenta Lamas.

O programa utiliza fotografias e linguagem iconográfica para que o usuário identifique com mais facilidade os procedimentos. O posto de saúde e os médicos disponíveis no local, por exemplo, são identificados com fotos. Outros dispositivos também são retratados em imagens, facilitando a navegação de analfabetos e analfabetos funcionais, que sabem ler, mas têm dificuldades em entender o que está escrito. "Orientações em áudio são usadas para que as pessoas saibam o que devem fazer durante a navegação", conta Lamas.

As mensagens em áudio se somam a vídeos com a linguagem de libras para facilitar o acesso de deficientes auditivos. "A pessoa que faz a tradução para libras está no mesmo plano que a que está narrando as instruções", observa o programador Saulo Henrique Rodrigues, que participa do projeto.

A ideia dos pesquisadores é que os novos usuários aprendam a usar a tecnologia de maneira tranquila e gradual. "Queremos que eles aprendam a usar a tecnologia de forma natural", diz. A plataforma foi criada de acordo com o projeto de cidades digitais, uma estrutura municipal de telecomunicações e internet para facilitar o acesso a informações e serviços públicos.

Saiba Mais

O conhecimento e o fluxo de informação passam a ser componentes essenciais na geração de riqueza e bem-estar da sociedade. Esse é o principal conceito das cidades digitais, conforme o livro As cidades digitais no mapa do Brasil: uma rota pra a inclusão social.

Software é criado a partir de reações do público-alvo

Dificuldades são levadas em conta para o desenvolvimento de ferramentas adequadas

O programa Soluções de Telecomunicações para Inclusão Digital (STID) foi desenvolvido nos últimos três anos com recursos do Ministério das Comunicações. Para testar as ferramentas, os pesquisadores montaram o Laboratório de Usabilidade, dentro do Laboratório de Inclusão Digital, e convidaram várias pessoas para avaliar a ferramenta. Construíram uma sala de observação parecida com as de interrogatório de filmes policiais. Em um ambiente estão os computadores que serão testados e em outro ambiente ficam os pesquisadores, que assistem a tudo através de uma parede de vidro espelhada.

Os cientistas do CPqD observam como o público-alvo usa a plataforma. A sala é repleta de câmeras que permitem monitorar a navegação do usuário e verificar suas expressões faciais durante a experiência. O observador pode movimentar as câmeras para ver o que cada um está fazendo.

Se a pessoa tem alguma dificuldade, o pesquisador interfere. "Nos computadores está instalado um software que verifica onde o usuário foca o olhar", conta Ronaldo Rocha, pesquisador da Diretoria de TV Digital.

Os analistas descobriram que o canto superior esquerdo é o primeiro local onde o usuário fixa o olho na tela. "Isso acontece porque é dessa forma que fomos alfabetizados", explica o gerente de marketing de produto do CPqD, Amilton da Costa Lamas.

O contato com o público-alvo permitiu aos pesquisadores desenvolver uma ferramenta fiel às suas necessidades, "Criamos um relógio digital na tela para o usuário marcar o horário da consulta no médico, mas nos testes verificamos que muitos não conseguiam ler os números. Por isso, trocamos o relógio digital pelo analógico, com o qual as pessoas estão mais acostumadas", comenta Lamas. (PA/AAN)

Computador, banda larga, usabilidade e conteúdo = inclusão

Desafio de transformar a sociedade vai além da distribuição de máquinas pelo governo

O desafio de incluir a sociedade no mundo digital vai além de fornecer computadores aos cidadãos, diz o presidente do CPqD, Hélio Graciosa. Ele destaca que é preciso banda larga a preços acessíveis e com velocidade adequada para a navegação. Segundo Graciosa, a velocidade estipulada pelo governo para o programa de banda larga popular é insuficiente para garantir a inclusão digital.

"Só 100kbps não resolvem, a velocidade tem que ser de 500kbps a 1 mega", afirma. Defende que o Estado deve tomar as rédeas e definir como deve ser feita a inclusão digital.

Graciosa diz que o Brasil está no caminho certo e cita o programa do governo para instalar banda larga nas escolas públicas até o fim de 2010. "Essa discussão de inclusão digital e banda larga está na pauta do dia."

O presidente do CPqD acredita que a inclusão deve ser tratada em três vertentes. A primeira é garantir o acesso ao computador e à banda larga. A segunda é dar condições de usabilidade. "Não adianta você dar um computador e acesso à internet sem ensinar o cidadão a usar a máquina. Pode ser que, no futuro, usar um computador seja trivial. Mas por enquanto é preciso ensinar", diz. E a terceira vertente é o conteúdo. "A inclusão digital vai modificar a forma de as pessoas serem educadas. Com a chegada do computador, a maneira de ensinar mudou e quem estiver desincluído daqui a 20 anos estará fora da sociedade", afirma.

Patrícia Azevedo

Fonte: Correio Popular



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cidades digitais, inclusão digital
 

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