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Eletricidade inteligente passa pelo smart grid
Conceito reúne evoluções a partir do uso massivo de TI e sistemas de comunicação e é uma das apostas para um futuro próximo
Medição é feita uma vez por mês, com a ida de um leiturista na casa do consumidorImagine você poder contratar energia elétrica sob demanda, usando um cartão pré-pago e liberando uma quantidade específica de watts, de acordo com a sua necessidade do momento, como tomar banho ou ver televisão? Esta é apenas uma das centenas de possibilidades que estão surgindo a partir da adoção do conceito de smart grid, que nada mais é do agregar às tradicionais redes elétricas tecnologia de ponta e modernas linhas de comunicação de dados.
Ao colocar inteligência nesse processo, é possível tornar a rede elétrica mais confiável e o consumo transparente, reduzindo os custos e otimizando os reparos. Esse gerenciamento, dependendo do nível de aplicação, pode permitir desde a possibilidade de a concessionária identificar mais rapidamente a necessidade de conserto em algum ponto da rede até transformar um consumidor de energia residencial em um fornecedor, nos momentos em que ele não estiver utilizando esse insumo, como já acontece em algumas localidades nos Estados Unidos.
O smart grid vem sendo utilizado com diferentes níveis de intensidade no mundo. No Brasil, alguns players de tecnologia, governos e concessionárias de energia já começam a olhar atentamente para essa tendência. O CPqD, um dos mais renomados centros de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) do País, com sede em Campinas, está envolvido com pelo menos dois grandes projetos nessa área. A empresa, que surgiu há 34 anos como centro de pesquisa da Telebrás, se tornou independente após a privatização e hoje conta com mais de 1,2 mil profissionais.
Em outubro, fechou parceria com as distribuidoras de energia Light, do Rio de Janeiro, e a Cemig, de Minas Gerais. Juntas, as concessionárias investirão R$ 65 milhões em pesquisa e desenvolvimento (P&D) que desenvolverá essa nova tecnologia e permitirá, além da melhoria na eficiência operacional, a redução das perdas comerciais e uma maior interação com o consumidor.
Com a Light, o CPqD será o responsável direto pelo projeto que trata de soluções de monitoramento e supervisão da rede subterrânea, bem como do software utilizado nesse processo. Além disso, desenvolverá a arquitetura de telecomunicações do smart grid. Já com a Cemig, fará o desenvolvimento e a realização de testes de laboratório e de campo de todas as soluções de medição inteligente. "Com o smart grid, temos a introdução massiva de TI e comunicação nas redes de energia elétrica, permitindo um ganho para a sociedade em geral", observa o presidente do CPqD, Hélio Graciosa.
No Rio Grande do Sul, a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) participa de um grupo de trabalho do Ministério de Minas e Energia que debate o smart grid. "Estamos nos atualizando e estaremos presentes nas audiências públicas para, assim que for acertada a regulamentação federal sobre o tema, iniciarmos um projeto-piloto", explica o assessor da presidência da CEEE que está acompanhando o tema de smart grid, Ricardo Munhoz da Rocha.
Ele explica que a companhia já possui alguns níveis de automação das suas redes elétricas, como nas chaves autocomandadas, que conseguem "enxergar" a corrente que passa pelo sistema. Com o smart grid, a expectativa é poder monitorar também o que acontece na casa do cliente, como algum defeito que possa atrapalhar a prestação do serviço.
O grande salto nesses projetos, porém, só deve acontecer quando for feita a regulamentação dos medidores inteligentes, que irão substituir os convencionais, tanto os mecânicos quanto os eletrônicos. Atualmente, esses dispositivos estão em fase de especificação técnica pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Esse é um procedimento fundamental dentro desse processo, já que esses equipamentos mais modernos serão capazes de medir o nível de tensão recebida em cada ponto. "Todo investimento feito pelas empresas do setor elétrico tem um custo que acaba sendo repassado para os consumidores e, por isso, esses estudos são fundamentais", observa Rocha.
Novo modelo viabiliza adoção de tarifas diferenciadas
A implantação da medição eletrônica no segmento de energia elétrica deve trazer uma série de facilidades para as concessionárias. A maioria diz respeito à própria condução de questões como reparos nas redes e corte remoto de energia no caso dos clientes inadimplentes.
Hoje em dia, as empresas costumam ficar sabendo que existe alguma falha ou queda de energia, seja em função de condições adversas do clima ou por vandalismo, a partir das reclamações dos clientes. Cientes disso, direcionam as suas equipes para as proximidades dos locais mapeados, com a missão de identificar o exato ponto a ser reparado. A evolução desse modelo prevê, a partir de sensores espalhados pela rede elétrica, que a empresa possa não apenas saber o local exato do problema como também fazer o conserto a distância.
Mas é a possibilidade da criação de cotas tarifárias diferenciadas um dos principais apelos do smart grid. Isso porque esse modelo tornará possível que o consumidor residencial saiba quais os horários em que o custo da energia é menor. "É uma grande novidade o fato de o consumidor poder ajustar o seu comportamento de uso da energia para poder ter um gasto menor no final do mês", comenta o coordenador do grupo multidisciplinar de smart grid do CPqD, Luiz Hernandes. As tarifas diferenciadas por horário estão disponíveis atualmente para os clientes de média e alta tensão. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) está estudando a extensão para os de baixa tensão, como residências e empresas e indústrias de pequeno porte.
Questões como essas poderão provocar mudanças na curva de carga do sistema como um todo. Além da redução dos custos para o cliente, fará com que os picos de demandas sejam minimizados, aliviando as redes, adiando a necessidade de investimentos de expansão e manutenção e otimizando as usinas geradoras.
Atualmente, a medição é feita uma vez por mês, com a ida de um leiturista na casa da pessoa. Já o consumidor recebe a conta no final do mês. Com a telemedição, possível através dos medidores inteligentes, o cliente pode ter acesso ao seu medidor em qualquer momento, podendo acompanhar o consumo e, assim, projetar os seus gastos. Esse controle pode ser feito através da internet, em um portal específico da empresa, ou através de um display interligado ao medidor eletrônico, que pode ficar na própria residência.
A programação do horário para que os equipamentos elétricos passem a funcionar também é uma evolução esperada. Em algumas localidades, já é possível programar uma máquina de lavar roupa para que a mesma passe a funcionar de madrugada e até mesmo a recarga de um carro elétrico, propiciando uma economia de custos para o consumidor e evitando a sobrecarga do sistema elétrico. "Estamos ingressando em um novo mundo no qual será possível fazer um gerenciamento completo da energia elétrica. Essa é a primeira vez em 30 anos em que vejo algo realmente novo nesse segmento", destaca o assessor da presidência da CEEE e responsável pelo acompanhamento do tema de smart grid, Ricardo Munhoz da Rocha.
Todo esse tráfego de informações passará por uma rede de transmissão de dados, como a fibra ótica. Essa infraestrutura poderá ser alugada junto às operadoras de telefonia, mas as próprias concessionárias poderão optar por ter o seu próprio sistema de telecom.
O controle inteligente permitirá ainda a implantação de um modelo de energia pré-paga, como já existe na telefonia. Já em uso em países mais carentes, como a República Dominicana, esse sistema permite que o consumidor carregue o cartão em uma loja com determinado valor. Antes de usar, basta ele digitar o código no medidor que, automaticamente, uma determinada quantidade de kilowatts é liberada.
Motivações para uso de tecnologia na rede elétrica variam pelo mundo
Necessidades brasileiras serão consideradas, diz Graciosa
Os motivos que levam os países a adotar o smart grid variam pelo mundo. Na Europa, a principal meta é a busca pela otimização das fontes de geração, que não são tão limpas como as encontradas no Brasil. Já nos Estados Unidos, procura-se de forma prioritária a confiabilidade do fornecimento e, no Brasil, a redução das perdas comerciais. "O conceito de smart grid é completamente aderente às necessidades brasileiras", comenta o presidente do CPqD, Hélio Graciosa.
A expectativa é que, nos próximos dois ou três anos, o Brasil comece a experimentar as vantagens da medição eletrônica e da telemedição em larga escala. Mas recursos de smart grid mais sistêmicos deverão se tornar uma realidade em, no mínimo, dez anos.
O País possui atualmente 65 milhões de unidades consumidoras. Trocar os medidores eletromecânicos, que são muito confiáveis e têm uma vida útil longa, por outro novo sistema e em uma base tão grande exige uma série de padrões de operação e funcionalidade. Da mesma forma, espera-se a homologação pelos órgãos reguladores, como o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). "Esta migração implica uma substituição de algo que está dando certo e, por isso, deve demorar um pouco", projeta o coordenador do grupo multidisciplinar de smart grid do CPqD, Luiz Hernandes.
Uma das empresas de tecnologia que mais tem apostado no conceito de smart grid é a IBM. Há cerca de dois anos a multinacional montou um time no Brasil para disseminar esse conhecimento e apresentar ao mercado como as soluções da companhia poderão ajudar os clientes desde o processo de definição das suas estratégias de smart grid até a implementação dos projetos. "A energia é bem escassa e cara e o smart grid é um conceito que traz ferramentas que ajudam as empresas a serem mais eficientes, permitindo que a infraestrutura de energia seja mais robusta e suporte o crescimento do País", aponta o gerente de soluções para Utilities da IBM Brasil, Gadner Vieira.
De acordo com o executivo, alguns países estão um pouco mais avançados que o Brasil. Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, por exemplo, determinou um investimento governamental de US$ 4,5 bilhões para que as empresas possam fazer os seus primeiros projetos nessa área. Mas o Brasil está avançando nesse conceito e, de certa forma, está alinhado com o resto do mundo.
Patricia Knebel
GILMAR LUÍS/JCFonte: Jornal do Comércio
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