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Segunda, 28 de Setembro de 2009 10:34

A internet está "ossada", com dificuldades de gerenciamento, onde mais de 1 bilhão e meio de usuários no planeta interagem. Para complicar um pouco mais, a tendência mundial é de crescimento estrondoso de novas aplicações e novos usuários. Com infraestrutura criada na década de 1970, a rede atual poderá ter um colapso dentro de algumas décadas. Por isso, o grande desafio dos pesquisadores é um só: criar uma nova internet para o futuro.

As utilizações cada vez maiores e diferenciadas na internet "engessam" a arquitetura original e o resultado revela uma rede cada vez mais difícil de escalar, monitorar e gerenciar. A comunidade científica e tecnológica no mundo já trabalha no desenvolvimento de soluções voltadas para a internet do futuro. As principais iniciativas internacionais e nacionais foram debatidas na semana passada no workshop Novas Arquiteturas para a internet do Futuro, no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), em Campinas.

A pesquisadora Tania Regina Tronco, que coordenou o workshop pelo CPqD, disse que a ideia foi reunir a comunidade acadêmica e as instituições de pesquisa nacionais e internacionais para apresentar as diversas visões da rede IP do futuro e discutir as tendências tecnológicas para os próximos dez anos.

Otto Carlos Muniz Bandeira Duarte, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, falou sobre virtualização de rede e as tecnologias que estão em teste para servir como soluções à futura internet. Duarte disse que os pesquisadores têm novos desafios para criação de uma nova internet nos próximos 20 anos. "Para garantir confiabilidade, a internet não poderá ter falhas e, caso tenha falhas, deverá ter recuperação muito rápida", afirmou. "Outros desafios deverão ser vencidos com relação à segurança na rede."

Outro item é relativo à mobilidade. "Prover melhores serviços de mobilidade é necessário, pois a comunicação sem fio é crescente e já está ultrapassando a comunicação fixa. É preciso rever o gerenciamento da rede, uma vez que a escala já tem 1,5 bilhão de usuários e isso só tende a crescer."

O pesquisador destacou também como desafio a melhoria na qualidade dos serviços. "Ninguém vai aceitar hoje uma nova rede sem fazer teste de escala", disse.

Segundo Duarte, todas as ferramentas do passado não servirão para testar a internet do futuro. "Antigamente se fazia testes com três ou quatro máquinas ou com simulação em modelos simplificados. Agora, uma internet com um 1,5 bilhão de usuários, tornou todos os problemas com complexidades extraordinárias", afirmou.

Espera-se que as soluções sejam propostas de forma paralela ao uso do atual modelo nos próximos quinze anos. "Nada vai ser resolvido em menos de cinco anos. A internet está ossada porque as aplicações mudaram de serviço. Quando foi criada, na década de 1970, a internet era utilizada apenas para envio de e-mail, transmissão de arquivos e acessar remotamente um computador", disse. "Atualmente, é feito televisão na internet, comunicação em tempo real e baixar filmes, entre tantas outras aplicações", disse.

Duarte lembrou também que esses requisitos novos fizeram com que o modelo antigo apresente uma adaptação inadequada, mesmo sendo considerado um sucesso. "Foram 40 anos se adaptando às mudanças e, por isso, fazer uma nova internet melhor que a atual é um grande desafio", disse Duarte.

O pesquisador explicou que, na parte de interface de rede, os estudos e a tecnologia para o uso de fibra óptica na internet estão bastante avançados. "Nos próximos anos, o Brasil poderá ter enlaces de até dez gigabits por segundo, coisa que há dez anos era impensável. As pesquisas em novas aplicações estão também avançando, principalmente as relacionadas a vídeo. Um exemplo é a computação em nuvens, que deverá revolucionar a forma de uso da internet", disse.

Outros campos devem ser aprofundados. "Há necessidade, entretanto, de solucionar os nós no interior da rede para acessar, por exemplo, uma pessoa nos Estados Unidos. Um novo protocolo deve ser criado. É nesse aspecto que os pesquisadores devem focar os estudos, na substituição do protocolo atual, conhecido como TCP IP", explicou.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, há um estudo que propõe a criação de vários protocolos para solucionar diversos tipos de acesso, em substituição ao protocolo único que concentra tudo. "A proposta é ter várias redes ao mesmo tempo em um equipamento físico através da tecnologia de virtualização. Com isso, há um ganho de flexibilidade ao ter vários tipos de rede em um mesmo equipamento físico. Ao invés de ter várias redes com vários equipamentos físicos, a internet passa a ter várias redes virtuais em um equipamento só", afirmou.

O pesquisador disse, por exemplo, que uma rede adaptada para voz sobre IP teria um protocolo diferente de uma rede que seria adaptada para outra tolerante a atrasos de conexões. "Essa tecnologia está sendo muito estuda. Há diversos problemas para serem solucionados, mas há um caminho a ser seguido", afirmou.

SAIBA MAIS

Promovido pelo próprio CPqD em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Fotônica para Comunicações Ópticas (Fotonicom), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o evento contou com o apoio do Funttel, Ministério das Comunicações, Fapesp e do CNPq.

CPqD estuda mudanças para nova rede mundial

O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) iniciou estudos para o desenvolvimento de uma nova arquitetura para a internet com base nas características dos usuários brasileiros. Trata-se do projeto Arcmip - Network Architecture for Mobile Communication Over IP (Arquitetura de Rede para Comunicações Móveis sobre IP), que conta com o suporte do Fundo Nacional para o Desenvolvimento das Telecomunicações (Funtell), do Ministério das Comunicações.

Tania Regina Tronco, pesquisadora do CPqD, disse que o projeto está na terceira fase e deverá iniciar a agenda efetiva de pesquisas na rede em 2010. "Nas duas primeiras fases foram realizadas aplicações e serviços para, depois, tentar refletir na infraestrutura de rede."

Cenários

A pesquisadora afirmou que foram identificados três cenários relevantes para a construção do futuro da internet. "Um cenário é o de serviços, voltado para as pessoas. A outra é a internet do conteúdo e a terceira é a internet dos objetos. Esses cenários foram desenhados e caracterizados. Foi classificado também o que é necessário fazer na rede para implementar", disse.

A fase atual é de estudo e aprofundamento do que já existe de abordagens e desenvolvimento nessa área no mundo. A quarta fase será voltada aos itens relevantes de pesquisas para serem desenvolvidas no Brasil, que tem características específicas de uso da internet e conta com um parque tecnológico específico para fomentar a indústria nacional. Para isso, seria criada uma agência de pesquisas.

Tania explicou que os estudos têm como base as características nacionais. "O Brasil tem hoje uma população continental e um mercado muito grande para expandir. Conta também com muitos serviços eletrônicos disponíveis, serviços que não são aplicados ainda em muitos países desenvolvidos, desde os sistemas utilizados em agências bancárias e sistema de loterias até o sistema de votação eleitoral. A ideia é explorar esse potencial e essa característica do País, principalmente no setor do desenvolvimento da indústria de softwares", disse. (GR/AAN)

Centro desenvolve projeto de conexões de alta velocidade

Espaço virtual experimental interliga 25 instituições e 70 laboratórios para experimentação de tecnologias e serviços de futura geração

Com foco no desenvolvimento de tecnologias inovadoras para o futuro da internet, o CPqD, em parceria com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), realiza também o projeto de rede experimental de alta velocidade - Giga. Por meio de um convênio assinado com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o projeto receberá, na segunda etapa, um investimento de R$ 25,54 milhões para o suporte das atividades de pesquisa e desenvolvimento nos próximos três anos. "O objetivo é obter o reconhecimento mundial do Giga como um espaço avançado e amplo de experimentação de tecnologias de redes e serviços de futura geração", afirmou Alberto Paradisi, gerente de Tecnologias Ópticas do CPqD e coordenador-geral do projeto.

Atualmente, a rede experimental do Giga interliga cerca de 25 instituições e 70 laboratórios, entre centros de pesquisa e desenvolvimento, universidades e operadoras de telecomunicações distribuídos no eixo Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro.

Na fase 2, a intenção é ampliar esse número, estabelecendo novas parcerias tanto com empresas quanto com universidades e institutos de ciência e tecnologia - e mesmo com outros projetos voltados para a busca de tecnologias para o futuro da internet. "A interligação com a Rede Ipê da RNP, por exemplo, aumentará significativamente a capilaridade da rede experimental no País, estendendo o alcance das atividades de pesquisa ao nível nacional", disse Paradisi.

Ao mesmo tempo, será estabelecido o acesso às redes internacionais por meio da Southern Light, uma das Open Lightpath Exchanges (Goles) da Global Lambda Integrated Facility (Glif), localizada em São Paulo e operada pela RNP em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP - projeto ANSP, da Fapesp).

A Glif é uma organização virtual que tem o objetivo de prover a infraestrutura internacional para a interconexão entre as redes ópticas de todo o mundo. Tudo isso permitirá a participação de maior número de laboratórios na Rede Experimental do Giga e, ainda, o envolvimento de pesquisadores brasileiros em projetos internacionais de vanguarda.

O Giga foi criado com objetivo de promover a inovação tecnológica por meio da pesquisa, do desenvolvimento, da experimentação e da validação de tecnologias de redes e de serviços voltados para aplicações de banda larga - baseadas em protocolo IP sobre infraestrutura de transporte óptico de pacotes e WDM (rede óptica de múltiplos comprimentos de onda). Atualmente, a rede experimental do Giga atinge velocidades de mais de 10 Gbps no núcleo e de 1 Gbps nos acessos.

Na segunda fase, a meta é evoluir a rede de modo a aumentar sua flexibilidade no suporte a novos serviços e a alcançar taxas de transmissão mais elevadas. No núcleo, a velocidade deverá chegar a 40 Gbps por canal óptico, numa etapa intermediária do projeto, podendo atingir até 100 Gbps no final. Nos acessos, a intenção é oferecer taxas de transmissão de até 10 Gbps.

Fonte: Gilson Rei - Correio Popular - 28/09/2009



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