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TV digital espera pela interatividade
Middleware está pronto para ser comercializado, mas aguarda decisões políticas
Apesar de muitas emissoras já terem migrado para o sinal digital, a tão comentada interatividade da TV digital não saiu do papel. Muitos aparelhos de TV ainda não atendem aos requisitos básicos para receber o chamado middleware, a camada de software intermediário para o desenvolvimento de aplicações interativas e que permitirá ao usuário interagir com a programação e até surfar na rede. Os chamados conversores para o sinal digital não foram adaptados para acomodar esses softwares.
"Acredito que a Copa do Mundo de 2010 vai impulsionar esse mercado e já tem algumas empresas se programando para lançar set top box (conversor de sinal digital) com o middleware de fábrica no final do ano. Esse período é historicamente excelente para o setor de televisões", conta Braz Izaias da Silva Junior, gerente da TQTVD, empresa que desenvolveu o middleware AstroTV.
Silva Júnior conta que o AstroTV é baseado no Ginga, um tipo de especificação padrão do middleware, desenvolvido para o sistema brasileiro de TV Digital. O software está pronto, mas ainda não pode ser instalado nas casas por falta de conversores adaptados. Essa demora na produção de conversores com middleware se deve, segundo os especialistas, ao atraso no lançamento do Ginga. Questões como o pagamento de royalties e a definição do modelo comercial a ser adotado estão emperrando a interatividade na televisão. "Agora vem o jogo político das empresas", comenta Silva Júnior.
E isso traz problemas para os consumidores. Quem investiu em aparelhos de TV aptos a transmitir o sinal digital e em conversores vai ter que desembolsar ainda mais dinheiro para comprar os novos conversores com o middleware. Isso porque, segundo especialistas, parte dos aparelhos disponíveis no mercado não tem memória suficiente para rodar o programa. "O middleware vai vir instalado de fábrica nos aparelhos. E quem já tem um conversor em casa pode ter que comprar um novo aparelho porque esses modelos mais antigos não têm memória suficiente para processar a interatividade", avalia Silva Júnior.
O pesquisador de TV Digital do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) Marcus Manhães não descarta, no entanto, a possibilidade do sofware ser vendido e instalado à parte. "Acredito que o consumidor terá opção de comprar aparelho ou fazer a instalação do software", comenta.
Assim que estiver em funcionamento, a tão aclamada interatividade da TV digital permitirá que o telespectador obtenha um conteúdo maior na programação que assiste e até navegue na internet. "Vai ser possível ter acesso a operações bancárias, clipes, serviços de governo, consultar INSS, informações sobre campanhas de vacinação e informações adicionais sobre os programas que estão sendo veiculados", conta Manhães.
O pesquisador do CPqD comenta que a interatividade vai proporcionar a chamada convergência digital. "O telespectador vai poder navegar na televisão, instalar teclado e mouse. A TV será um computador simplificado", resume. Segundo ele, até 2016 (prazo estabelecido pelo governo para a migração para o sistema digital) muita coisa vai mudar. "A experiência das pessoas com a TV é diferente da experiência com o computador. Essa diferença pode ser cada vez mais amplificada", diz o especialista em TV digital.
O gerente da TQTVD afirma que, na convergência digital, o consumidor pode acessar a internet pela televisão, "conversar pelo computador e assistir à TV pelo celular". Silva Júnior aposta no nascimento de um novo tipo de telespectador. "O usuário de TV não terá a mesma postura passiva que nossos pais tinham. Ele vai interagir com a televisão através de quiz, enquetes ou conteúdo alternativo", comenta.
Sistema de alta definição exige mais investimentos
Transmissão digital das emissoras de sinal aberto ocorre hoje em 22 cidades do Brasil
As emissoras de TV estão se movimentando, mas têm até sete anos para converter suas transmissões para o sistema digital. O Ministério das Comunicações determinou que até junho de 2016 todas as emissoras interrompam definitivamente suas transmissões em sinal analógico.
Quem quiser ter a melhor qualidade de imagem terá de comprar um aparelho com conversor integrado ou um conversor externo com o middleware para ter acesso à programação interativa. Isso porque os televisores que estão no mercado hoje ainda não trazem o middleware e não possibilitam a interatividade. Além disso, será necessário uma antena UHF, caso ela não esteja embutida no conversor ou no aparelho de TV.
Quem não quer esperar até 2016 pode comprar os equipamentos, que ainda são vendidos sem o middleware, para ter uma qualidade melhor de imagem dos canais que já operam com sinal digital. Atualmente, as emissoras fornecem sinal digital em 22 cidades do País.
Mas a qualidade de imagem só será superior nos canais com esse tipo de sinal. Para o usuário da TV paga, o sinal digital só é transmitido com a contratação de um plano HD (alta definição). O consumidor tem que pagar valores que variam de R$ 100,00 a R$ 250,00 para ter acesso à melhor qualidade de imagem. "Eu comprei uma TV Full HD achando que a qualidade da imagem seria melhor que a da TV antiga, mas me decepcionei. Chamei um técnico de TV e ele explicou que como o sinal enviado pela TV a cabo ainda é analógico, a imagem fica granulada. Agora vou ter que pagar um pacote HD para ter uma qualidade melhor", contou a publicitária Roberta Silva.
Para aproveitar todos os recursos de uma TV Full HD (Full High Definition), o usuário deve ainda trocar o seu aparelho de DVD por um de Blu-ray, que trabalha com imagens em alta definição. No final, a conta sai bem alta.
Colocando na ponta do lápis, sai no mínimo R$ 3,5 mil, incluindo uma TV de alta definição, conversor, aparelho de Blu-ray e pacote HD da operadora. (PA/AAN)
Setor precisa rever modelo de negócios
O pesquisador de TV digital do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) Marcus Manhães diz que a interatividade preconizada pela TV Digital é um desafio para o setor de radiodifusão. "O modelo de negócios vigente na radiodifusão se baseia na publicidade. Os responsáveis pelos conteúdos interativos têm que ter boas sacadas para manter a audiência dos telespectadores", comenta. Para o gerente da TQTVD, Braz Izaias da Silva Junior, os patrocinadores devem perceber que têm na interatividade uma poderosa aliada. "Os bancos, por exemplo, podem permitir que o telespectador faça simulações de cartas de crédito pela TV. É um novo meio de publicidade que pode ser explorado", acredita. E as emissoras de televisão estão preparadas para colocar conteúdo interativo no ar. Segundo Silva Junior, desde 2007 as emissoras de TV brasileiras vêm desenvolvendo conteúdo interativo. "As emissoras estão bem adiantadas, desenvolvendo conteúdo e aplicativos", conta. (PA/AAN)
Patrícia Azevedo
Fonte: Correio Popular
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