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Trópico: um prêmio pela superação
Por seu desempenho financeiro em 2008, o Trópico foi escolhida a Empresa do Ano do Anuário Telecom 2009. É um feito e tanto para uma empresa que, em 2002, por pouco não faliu.
Raul Del Fiol, o presidente da Trópico, descobriu logo o nome do coordenador do Grupo de Implementação da Portabilidade Numérica: Luiz António Vale Moura, funcionário da Anatei, indicado ao cargo em abril de 2007. Ao longo de 2007, Del Fiol fez o que pôde para conversar com Luiz António várias vezes, e cara a cara - marcou reuniões na Anatei, foi a eventos. Del Fiol precisava de uma reconfirmação. "A portabilidade ficará mesmo pronta até março de 2009?"
Para que as operadoras instalassem portabilidade no Brasil inteiro de setembro de 2008 até março de 2009, conforme o cronograma da Anatel, elas teriam de comprar equipamentos ao longo de 2008. Del Fiol precisava vender esses equipamentos. Mas, na fábrica da Trópico em Manaus, ele empregava só cinco funcionários, que não dariam conta das encomendas. Ele não queria L contratar mais funcionários, [para depois demitir os mesmos funcionários, sem lucro nenhum, caso a Anatel adiasse a estreia da portabilidade. A Trópico não resistiria a um gasto assim, pois ela ainda tentava sobreviver a 2002.
Em 2002, a receita bruta da Trópico caiu 98,87%. Em 2001, as operadoras adiantaram as metas de universalização (para ganhar o direito de competir em todo o Brasil), a Trópico vendeu muitas centrais telefónicas e faturou R$ 214 milhões. Em 2002, com as metas já cumpridas, as operadoras pararam de comprar, e a Trópico faturou só R$ 2,2 milhões, com prejuízo de R$ 40 milhões. Del Fiol já esperava um 2002 ruim, mas não um 2002 péssimo.
Nas reuniões de diretoria, ele e seus colegas discutiram os cenários e jeitos de manter a Trópico aberta. Eles já desenvolviam a linha Vectura de centrais IP multisserviços desde 1999, mas a bolha pontocom estourou, a Al-Qaeda destruiu as torres gémeas em Nova York, e por tudo isso os executivos das operadoras desistiram de redes IP multisserviços (NGNs). Del Fiol precisava arranjar dinheiro e escolher quem ficaria na Trópico, "para manter os processos vivos". Ele conseguiu fechar um acordo com o Funttel (R$ 73 milhões) e com o BNDES (R$ 12 milhões), para continuar melhorando a linha Vectura. E então demitiu 370 funcionários; ficou com 30 pessoas em Campinas e cinco pessoas na fábrica de Manaus.
Del Fiol instruiu os funcionários restantes a enfiar uma coisa na cabeça: nenhuma operadora jogaria máquinas velhas para instalar máquinas novas no lugar, mesmo que as máquinas novas permitissem a venda de serviços milagrosos. Eles tinham de projetar a linha Vectura de tal forma que a operadora, quando comprasse algum produto Vectura, oferecesse serviços novos por meio das máquinas velhas também. Conforme os meses passaram, os 30 funcionários de Campinas estudaram documentos técnicos da União Internacional das Telecomunicações, das associações do tipo 3GPP e IEEE, dos fabricantes. Estudaram o significado de cada bit de cada byte de cada protocolo. E projetaram a linha Vectura para fazer chamadas telefónicas comuns, para passar mensagens e ligações de centrais fixas da Ericsson para centrais celulares da Alcatel para roteadores da Cisco e para telefones digitais da Siemens. A cada etapa dos projetos, os funcionários da Trópico se aproximavam da máquina Vectura ideal: ela se comporta como um roteador entre roteadores, como uma central telefónica celular entre centrais celulares, como uma central de serviços 0800 entre centrais 0800. Sempre que terminavam as especificações de uma nova placa ou módulo, mandavam a papelada para Manaus.
Os cinco funcionários da fábrica pegavam cada especificação e a transformavam num plano de produção. Del Fiol já tinha lhes explicado o desafio: caso as operadoras comprassem muitas Vecturas de uma vez, de que jeito a Trópico conseguiria comprar componentes, montar as placas e os módulos, testar tudo e despachar tudo sem contratar mais funcionários diretos? Eles formaram uma comitiva, da qual Del Fiol fez parte, e visitaram a Moto Honda da Amazónia. Del Fiol ficou impressionado. "Eles conseguem fazer uma moto a cada 20 segundos." Em resumo, a Honda montou um esquema de trabalho em que os funcionários de cada fornecedor trabalham dentro da fábrica. Funcionários da fábrica e dos fornecedores se organizaram em comités especializados. Quando surge um problema em alguma estação de trabalho na linha de produção, o comité especialista corre para lá e resolve o problema na hora. E cada moto avança de estação em estação - apesar dos problemas.
Del Fiol e os cinco funcionários montaram planos de produção semelhantes: eles trariam funcionários dos fornecedores para dentro da fábrica da Trópico, e organizariam esses funcionários em comités, do tipo comité móvel de crise.
Em 2004, a Trópico vendeu máquinas Vectura pela primeira vez, para a Telefónica e para a Oi. As concessionárias tinham de cumprir a lei e fazer com que certos números funcionassem em todo lugar (tipo 133 para falar com a Anatel). "Essas operadoras", diz Del Fiol, "têm uma colcha de retalhos de centrais telefónicas diferentes." Elas usaram máquinas Vectura como tradutor. Negócios assim foram se repetindo até 2007, quando as concessionárias tinham de instalar a bilhetagem local detalhada. Se o cliente exigisse (e pagasse), ele receberia em casa uma conta detalhada das ligações locais. Muitas centrais telefónicas locais não conseguem gerar uma conta assim, mas, se a central velha for interligada a uma central Vectura, a Vectura registra os números para os quais o cliente ligou, registra a duração das ligações, e providencia a conta.
Em 2007, a Trópico já faturava R$ 97 milhões por ano, e Luiz António Vale Moura, o homem-portabilidade da Anatei, não perdia a chance de divulgar o cronograma: em março de 2009, haveria portabilidade no Brasil inteiro. Depois de conversar com Luiz António algumas vezes, Del Fiol achou que a portabilidade ficaria pronta no prazo. "Senti segurança."
Era a oportunidade de encerrar de vez o ano de 2002. Com a portabilidade, as centrais telefónicas teriam de interromper o trabalho de encaminhar a ligação ao número de destino para consultar uma máquina mais inteligente - qual é, de verdade, o número de destino? Uma Vectura cumpre bem essa função, a de dar explicações ao resto da rede em várias línguas; na configuração máxima, ela trata de 100 mil mensagens por segundo.
Mas os processos da fábrica em Manaus são complicados; a Trópico importa componentes, e nem todos eles chegam na mesma hora. Os funcionários levam cada placa de estação em estação, conforme os componentes chegam; as placas vão e vêm na linha de produção. Eles montam muitos tipos distintos de placas, mas montam pouca quantidade de cada tipo. Ou seja: tudo na linha de produção da Trópico é ao contrário das linhas de produção de outros aparelhos eletrônicos, com os quais os operários de Manaus estão acostumados. Quando Del Fiol acreditou em Luiz António, ele decidiu tornar a vida dos novos funcionários da Trópico mais fácil. No primeiro trimestre de 2008, ele mandou a fábrica estocar componentes. "Se a Anatel adiasse a portabilidade", diz Del Fiol, "a gente perderia dinheiro."
Mas a Anatel não adiou. Del Fiol vendeu máquinas Vectura para a Telefónica, a Oi, a Brasil Telecom, a GVT. Em 2008, Del Fiol contratou mais 20 funcionários para a fábrica de Manaus (ficou com 42 funcionários), e trouxe mais 200 funcionários de terceiros (ficou com 300 terceiros), e eles montaram 60 mil módulos da Vectura em 2008 - metade para a portabilidade, metade para serviços novos en redes velhas. As operadoras aproveitaram a ocasião e instalaram máquinas Vectura para outros serviços também. A Oi, por exemplo, passou a vender um cartão pré-pago especial, com o qual o cliente fala ao telefone fixo e ao celular.
Com o faturamento bruto de R$ 209 milhões de 2008, Del Fiol conseguiu até quitar o empréstimo com o BNDES, e se livrou de pagar juros e encargos de R$ 75 mil por mês. Nos últimos anos, diz Del Fiol, as operadoras fixas e celulares só pensaram em instalar máquinas de banda larga no maior número possível de ruas. Clientes conseguem escolher várias versões de serviços de banda larga, mas nenhum desses serviços é inteligente. No caso da banda larga celular (3G), por exemplo, o cliente paga uma taxa por mês e tem direito a transmitir uma certa quantidade de bytes. Quando ele atinge sua cota, visto que a operadora não pode interromper o serviço (é contra a lei), ela limita a velocidade. Muitos clientes não sabem disso, e reclamam do serviço lento. A partir de 2010, diz Del Fiol, coisas assim devem mudar.
As operadoras devem investir em serviços IP que funcionem ao longo de várias redes, inclusive redes fixas e celulares. Essa iniciativa é conhecida pela sigla em inglês: IMS. Na prática, as operadoras devem instalar máquinas de controle e tradutores de protocolos para interligar melhor os serviços de telecom aos serviços de Internet. Quando o cliente estiver na rua, ele receberá uma mensagem no celular: sua mãe deixou um recado na secretária eletrônica do telefone de casa. E depois outro: seu chefe mandou um e-mail com a palavra urgente. Para Del Fiol, esse tipo de serviço IMS é a cara da Vectura.
Em Manaus, o pessoal da fábrica trabalha para automatizar cada vez mais a produção das placas e, ao mesmo tempo, o pessoal de Campinas estuda vários modelos de computadores industriais. A Trópico ganha pouco ao vender hardware. Mais para a frente, a Trópico vai fabricar poucas placas, e vai comprar computadores industriais no Brasil, na Ásia. Cada vez mais, diz Del Fiol, a Trópico deve virar uma empresa de software.
Em 2009, sem a portabilidade, a Trópico fatura uns R$ 110 milhões, ou seja, cresce 13% em relação a 2007. Para Del Fiol, está muito bom, pois ao menos o ano de 2002 foi superado. Logo as operadoras começam a instalar serviços novos por meio das máquinas velhas, e a Trópico deve crescer. Em Campinas, dos 200 funcionários atuais, 130 pesquisam os detalhes de serviços IMS. "Só conseguimos crescer", diz Del Fiol, "conforme empregamos gente em P&D."
PERSONAGENS
O CPqD funde duas diretorias
O CPqD uniu a diretoria de redes de telecomunicações com a de sistemas de nova geração e criou a diretoria de redes convergentes. O engenheiro Paulo Roberto Cabestré coordenará os trabalhos para desenvolver produtos baseados em redes óticas, sem-fio, e de protocolo IP (redes de nova geração), e em centrais digitais. A diretoria terá 180 pessoas e vai desenvolver produtos principalmente para as empresas do grupo CPqD, como Padtec, Trópico e WxBR.
Fonte: Jornal Telecom
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