Mobilidade elétrica: caminho para um planeta sustentável

carro eletrico

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nove em cada dez habitantes dos grandes centros urbanos no mundo estão expostos a níveis de poluição pelo menos 2,5 vezes mais altos do que se considera aceitáveis – e que foram responsáveis pela morte de 3,7 milhões de pessoas em 2012. Além dos prejuízos à saúde, e do consequente impacto econômico, o gás carbônico (CO2) liberado pela queima de combustíveis fósseis (como carvão e derivados de petróleo) também é uma das principais causas do aquecimento global. Estudo da OMS indica que, para evitar um aumento de mais de 2ºC na temperatura média global, as emissões de CO2 devem limitar-se a, no máximo, 32,6 bilhões de toneladas ao ano – pico que está previsto para ser atingido em 2017.

Atualmente, cerca de 60% da poluição atmosférica nas grandes cidades é gerada por veículos automotores movidos a combustíveis fósseis. Por isso, em todo mundo, a busca por soluções que ajudem a reduzir o efeito estufa – e sejam ambientalmente amigáveis – passa pela mobilidade elétrica.

A recente aceleração no desenvolvimento de veículos híbridos e elétricos tem origem nas regulamentações ambientais da Europa, de países da Ásia e de alguns estados dos EUA, que restringem, cada vez mais, os limites de emissão de CO2 por milha ou quilômetro rodado. Diversos países estão implementando programas incentivando o uso de veículos elétricos. A China, por exemplo, tem a meta de colocar meio milhão desses veículos nas ruas até 2015 e cinco milhões até 2020 – e, para isso, oferece subsídios equivalentes a até US$ 9.800, para veículos 100% elétricos, e a até US$ 5.700, para os modelos plug-in.

Estados Unidos, Japão, Noruega, Alemanha, França, Inglaterra, Austrália e Canadá, entre outros países, também têm investido pesado em programas de incentivos para aquisição de veículos elétricos – o que estimula as montadoras a ampliarem a oferta de modelos no mercado. Na América do Sul, a Argentina estabeleceu alguns incentivos para a importação de veículos híbridos e elétricos, enquanto o Chile – onde a importação e a comercialização desses modelos são liberadas – inaugurou uma estação de recarga rápida na capital Santiago.

E no Brasil, como está essa tendência?

A possibilidade de utilização de etanol e biodiesel como combustíveis no país torna menos desafiadores os limites máximos de emissão de CO2 – tão difíceis de alcançar lá fora, com gasolina e diesel refinados. Além disso, ao contrário do petróleo, o etanol tem a vantagem de ser uma fonte renovável de energia. Mas, como a mobilidade elétrica é uma tendência cada vez mais forte em todo o mundo, alguns estudos e iniciativas nessa direção começam a despontar também no Brasil – como é o caso do projeto de pesquisa e desenvolvimento (P&D) conduzido pela CPFL, em parceria com o CPqD (leia em Estudo mostra baixo impacto no consumo de energia elétrica).

A verdade é que, além de diminuir ou zerar a emissão de poluentes, os veículos elétricos apresentam uma série de vantagens inegáveis: são mais simples, demandam menos substituição de peças e partes (já que não possuem itens como caixa de marchas, bomba de combustível, filtros, correias, bicos injetores, radiador, alternador, etc.) e, assim, apresentam menor custo de manutenção e de consumo em relação aos veículos a combustão. O estudo realizado pela CPFL, como parte do seu projeto de P&D, mostrou que o custo do quilômetro rodado em um carro a combustão, utilizando etanol, é da ordem de R$ 0,19, enquanto o veículo 100% elétrico percorre a mesma distância por algo em torno de R$ 0,05.

O principal desafio técnico que o veículo elétrico puro ainda enfrenta é a autonomia da bateria: com a tecnologia hoje existente, não é possível ter a mesma autonomia de um veículo a combustão, a custo razoável. Para superar essa limitação, é necessário instalar uma infraestrutura de recarregamento das baterias nas cidades, estradas e áreas rurais – os eletropostos, que têm papel semelhante aos atuais postos de combustíveis espalhados pelo país.

Porém, isso passa por uma forte necessidade de regulamentação e, também, de definições importantes. Por exemplo, quem vai instalar e operar essa rede de eletropostos: as concessionárias de energia elétrica (hoje as únicas autorizadas a comercializar esse recurso no país), ou um novo tipo de empresa a ser criado com essa finalidade? Se um shopping instala um posto de recarga, quem vai vender a energia: o shopping ou a concessionária? Como será a cobrança (billing) da energia vendida no eletroposto? Qual será o padrão das tomadas de recarga adotado no Brasil?

Boa parte dessas respostas demanda definições regulatórias, que estão sendo discutidas no mundo todo. Por isso e para não ficar na dependência da criação dessa infraestrutura para tornar o veiculo elétrico uma realidade, criou-se a categoria dos híbridos.

O que é veículo híbrido?

É um veículo que tem dois motores – um elétrico e outro a combustão. O motor a combustão, além de também poder participar da propulsão mecânica do veículo, recarrega a bateria do motor elétrico, dispensando, parcial ou totalmente, a necessidade da infraestrutura de recarga. É, portanto, uma solução intermediária que permite implementar, de imediato, um certo grau de mobilidade elétrica (mais detalhes no texto Elétrico puro, híbrido ou plug-in?).

Porém, a tendência é que, na medida em que os veículos híbridos do tipo plug-in (que também podem ser recarregados em tomadas) ganhem espaço no mercado, a infraestrutura de postos de recarga seja ampliada, levando o consumidor a preferir o veículo elétrico puro. Até lá, alguns desafios terão que ser superados.

Um deles é o da padronização das tomadas de recarga, em que o Brasil já vem trabalhando. Na verdade, não há um padrão único de plugues desse tipo no mundo – e, o que é pior, as tomadas não são intercambiáveis. No Brasil, estamos tentando nos antecipar (já existem normas ABNT, que não são mandatórias) e evitar que ocorra o que está acontecendo nos EUA e Europa, onde há importação de veículos elétricos de várias partes do mundo, com diferentes padrões de tomadas. Então, não adianta montar uma infraestrutura de recarga das baterias, se ela não puder ser usada por todos os carros disponíveis no país. Por isso, estamos trabalhando para criar uma padronização adequada à realidade do país e, também, ao que vem sendo feito no mundo.

Sem dúvida, esse é um ponto importante para o sucesso do veículo elétrico no Brasil – assim como a necessidade de algum tipo de incentivo capaz de reduzir o custo dessa tecnologia, que ainda é muito cara para a maioria dos brasileiros. Afinal, é bom lembrar que o sucesso da mobilidade elétrica vai colocar o país no time das nações engajadas na luta pela preservação do meio ambiente e pela sustentabilidade do nosso planeta.

Raul Fernando Beck é engenheiro responsável da Área de Sistemas de Energia do CPqD;

Maria de Fátima N.C. Rosolem é pesquisadora da mesma área.