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Internet das Coisas (IoT)

Promove uma atuação mais ágil e inteligente, criando novas formas de gerar valor ao negócio.

IoT habilitando novas formas de gerar valor no setor elétrico

Por Rodney Nascimento, Luiz José e Fabio Niizu

Estamos vivenciando um período extraordinário de transformação. Novas questões econômicas, operacionais, políticas e regulatórias estão pressionando as empresas do setor elétrico a agirem. As empresas também enfrentam um cenário tecnológico totalmente novo, que inclui redes inteligentes, microgeração, gestão de energia sustentável e renovável, veículos elétricos, casas e cidades inteligentes.

A conectividade onipresente e a oferta de sensores menores, mais baratos e mais inteligentes estão derrubando barreiras para aplicações até então inviáveis. Da mesma forma, a coleta e a capacidade de análise de dados de diferentes origens estão crescendo exponencialmente, possibilitando insights e oportunidades valiosas para alavancar a eficiência ou estabelecer novos fluxos de receita.

Drivers de transformação digital

Os efeitos da transformação digital dos negócios são, sem dúvida, o tema mais recorrente nos artigos e palestras da atualidade. Nesse cenário, a Internet das Coisas (IoT) está ganhando força e dando ainda mais corpo e velocidade nessa grande onda de transformação, contribuindo com inúmeras ações empreendedoras que entrelaçam o mundo físico e o digital. Considerada o principal driver de transformação digital da atualidade, a IoT compreende a combinação de diferentes tecnologias (dispositivos e sensores, conectividade e mobilidade, computação em nuvem, analytics, geolocalização e redes sociais), para solucionar desafios de diferentes setores da economia.

É inegável que a tecnologia sempre será um elemento importante no processo de inovação. Entretanto, no âmbito da transformação digital, o valor real do “digital” não será essencialmente uma evolução tecnológica, mas sim a capacidade e a agilidade de utilizar a tecnologia para identificar uma oportunidade e colocar em prática uma estratégia que promova uma mudança significativa na forma de gerar valor.

O risco da disrupção

No contexto de modelo de negócio, são vários os casos de empresas que surgiram de forma inesperada e conseguiram romper o status quo, conquistando espaço em um mercado dominado por grandes organizações. Exemplos como Uber, Airbnb, Spotify e Netflix conseguiram implantar com sucesso uma estratégia de inovação disruptiva, estabelecendo um novo modelo de atuação no mercado e eliminando a participação de atores da cadeia de valor.

Muitos acreditam que o sucesso alcançado por essas empresas é fruto de uma inovação tecnológica. Não é verdade! Sim, elas utilizam vários recursos tecnológicos que permitem oferecer uma experiência diferenciada ao cliente, porém utilizam tecnologias existentes, sem grande apelo inovador.

Todas essas inciativas empreendedoras romperam os paradigmas de mercado ao realizarem com perfeição a modelagem de serviços centrados em seus clientes. A partir de uma profunda compreensão dos atores de seus ecossistemas de negócios (oferta e demanda), de suas necessidades e suas experiências, foi possível ofertarem serviços com tamanho valor percebido (custo-benefício e usabilidade), que elas não apenas absorveram clientes dos concorrentes existentes, mas, principalmente, ampliaram o mercado, trazendo para o “jogo” consumidores que, até então, não se sentiam atraídos pela proposta de valor vigente.

Nenhuma empresa está imune às mudanças da era digital e ao efeito de uma disrupção. No setor elétrico não é diferente, principalmente onde a complexidade e a diversidade de tecnologias envolvidas muitas vezes inibem a adoção ou até mesmo a percepção de oportunidades de novos modelos de gerar valor para a organização.

IoT: desafios e oportunidades

De um modo geral, muito já se avançou em termos de digitalização dos processos operacionais no setor elétrico. Por exemplo, a partir da comunicação máquina a máquina (M2M), recursos de reconfiguração de rede atuam sobre dispositivos de forma rápida e eficiente.

Entretanto, a maioria das redes e dos dispositivos em operação atualmente ainda possui um propósito específico, ou seja, são utilizados em aplicações confinadas, em um relacionamento “peer to peer”, e quase sempre delimitam um silo de informação.

Esse cenário se apresenta como um desafio a ser superado a partir da adoção da Internet das Coisas. Nesse contexto, os dispositivos tendem a quebrar as barreiras dos silos e terem os seus dados combinados com dados de diferentes origens e perspectivas de interesses do negócio, produzindo novas informações, insights e oportunidades.

As tecnologias disponíveis já permitem que as concessionárias monitorem o consumo de eletricidade usando produtos interoperáveis e padronizados, incluindo medidores e outros dispositivos inteligentes, capazes de se comunicarem entre si e tomarem decisões em tempo real.

Toda a massa de dados coletados possibilita à empresa interpretar padrões de consumo, identificar rapidamente problemas e soluções, alocar recursos de forma mais eficiente e criar novas formas de interação com os clientes, dando visibilidade sobre os seus dados de consumo.

Com a evolução da maturidade digital da organização, novas perspectivas de valor surgirão, pois o avanço no processo de transformação possibilitará maior visibilidade, controle e inteligência sobre a operação e a cadeia de valor. Isso tende a estimular a sensibilidade para novas oportunidades de inovação e habilitar valor, como:

• Novos patamares de eficiência operacional em diferentes processos operacionais
• Novas experiências e mecanismos de engajamento com os clientes
• Novos modelos de negócios e fluxos de receita

A plataforma dojot habilitando a inovação aberta e o empreendedorismo nas cidades

Eficiência operacional

A maioria das organizações que iniciaram um projeto IoT tem como objetivo aumentar a eficiência e reduzir custos. Utilizando dados que já são coletados, adicionando novos sensores nos produtos ou analisando os dados coletados em um equipamento, é possível identificar desgastes e prever falhas antes da ocorrência, disparando o processo de manutenção quando necessário. Isso reduz o tempo e o número de paradas, programadas ou não.

Nessa perspectiva de valor, o caso de uso em destaque é a digitalização de ativos, também conhecida pelo termo “gêmeo digital”, que consiste em coletar e armazenar os dados de sensoriamento relacionados a um dado ativo – por exemplo, um transformador -, agrupá-los e organizá-los em uma série histórica. O conjunto desses dados representa digitalmente o ativo, contendo as condições às quais o mesmo foi submetido.

Através da digitalização do ativo e da inteligência analítica, torna-se possível predizer quando o ativo está na iminência de uma falha, possibilitando agendar paradas programadas com grande precisão. Com a identificação e a aprendizagem de padrões é possível comparar o equipamento específico a outros que sofreram condições similares, predizendo o comportamento futuro do equipamento em análise.

Todo esse conhecimento permite que se tomem ações preditivas nos ativos para diminuir consideravelmente as interrupções não programadas. Da mesma maneira, as interrupções programadas podem ser otimizadas de acordo com as condições específicas a que o ativo foi submetido, permitindo um maior retorno sobre o capital investido a partir do aumento do tempo de utilização. Mesmo quando necessária, a manutenção será realizada em um tempo menor, uma vez que o diagnóstico também pode ser feito de forma automática. Além disso, o reparo a ser realizado pode contar com o suporte de realidade aumentada, que terá por base o histórico de dados e procedimentos técnicos e de segurança, auxiliando a equipe de manutenção durante a execução do serviço. Aplicações como essa certamente aumentarão a segurança e a produtividade, reduzirão erros e encurtarão o ciclo de treinamento e preparação dos profissionais para as atividades sobre uma grande diversidade de equipamentos.

A evolução da maturidade da aplicação de IoT na perspectiva de eficiência operacional também vem habilitando a oferta no mercado de um novo modelo de negócio, em que o produto físico é vendido como serviço, gerando assim um fluxo de receita recorrente ao fornecedor.

Experiência do cliente

Atualmente, observamos o rápido crescimento da sociedade conectada e seus efeitos sobre os hábitos e as relações entre as pessoas e as instituições. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas, a expectativa é de que, nos próximos dois anos, o Brasil tenha mais de 236 milhões de smartphones nas mãos das pessoas. Naturalmente, o crescimento da sociedade conectada deve ser tratado tanto na dimensão de desafio como de oportunidade.

De um modo geral, os desafios se caracterizam pelas significativas mudanças de comportamento provocadas nos consumidores, que, movidos por um ritmo muito mais intenso de consciência coletiva (acesso e compartilhamento de informação),apresentam novos patamares de expectativas em relação aos serviços, desejando mais qualidade, maior agilidade e transparência, além de novas possibilidades de interação: a qualquer momento, em qualquer lugar e a partir de qualquer dispositivo.

Uma das ações para atender a essa nova demanda é através da criação de aplicativos para dispositivos móveis que, além oferecerem ao cliente ferramentas para gerenciar o seu perfil de consumo, também possam promover a eficiência energética, a partir do conceito lúdico de “gamification”, por exemplo, estimulando a interação de pessoas em grupos para disputar prêmios em função do percentual de redução de consumo, colaborando para um objetivo maior de conservação energética e ambiental.

Essa implementação gera oportunidades através de novas possibilidades para conhecer melhor os clientes e desenhar perfis baseados em dados (analytics), seja para inovar na oferta de produtos e serviços (energia renovável e soluções para casas inteligentes) ou para criar novas formas de comunicação e engajamento com os clientes.

Atualmente, já não há barreira tecnológica para que o consumidor monitore seu consumo, inclusive de forma estratificada de seus principais “appliances”, permitindo decisões inteligentes de uso em função de tarifas horárias e um melhor controle sobre o orçamento doméstico. A concessionária também potencializa seus benefícios à medida que os sinais de preços de tarifa estimulem o consumidor a moldar efetivamente seu perfil de demanda, de forma a otimizar a capacidade da rede.

Novos modelos de negócio

Em todos os setores da indústria, a Internet das Coisas vem transformando negócios e criando novas oportunidades para produtos e serviços de valor agregado e, consequentemente, novos fluxos de receita. Para isso, o desenvolvimento de um ecossistema de parceiros de inovação torna-se fundamental para ganhar agilidade e as capacidades digitais necessárias para atender às expectativas dos clientes.

No contexto da geração distribuída, as concessionárias poderão perceber uma disrupção em seu modelo convencional de negócio, à medida que a complexidade de operação da rede cresça significativamente, com o aumento da energia injetada, provocando, ao mesmo tempo, dificuldade no controle do nível de tensão e potencial redução da receita. Possivelmente, novos modelos de negócio surgirão para a concessionária, com novas funções de intermediação em sua rede, balanceando o suprimento de energia convencional, com a oferta massiva e descentralizada de energia distribuída e a carga variável. A obtenção desse equilíbrio também passará por outros modelos de negócio, como programas de resposta à demanda, com a concessionária concedendo descontos e abatimentos aos clientes para permitirem o controle, por exemplo, de cargas do consumidor, como aquecimento ou climatização.

Algumas concessionárias estão se destacando no cenário mundial, ao oferecerem soluções completas para casas inteligentes e edifícios conectados. De um modo geral, essas soluções incluem desde o gerenciamento de consumo, geração e armazenamento, até o controle remoto de diferentes dispositivos, por exemplo, o ar-condicionado ou o motor da piscina. Nesse cenário, vale destacar que vender o quilowatt não consumido pode se tornar um negócio tão ou mais atrativo do que o consumido.

A mobilidade elétrica é outra perspectiva de valor a ser explorada, tanto sob o aspecto de negócio quanto de sustentabilidade, dado que o transporte é responsável por grande parte das emissões de carbono. As concessionárias podem criar programas de incentivo, em parceria com fabricantes de veículos elétricos e híbridos.

A partir da adoção crescente do carro elétrico no Brasil, será possível promover a modulação da curva de carga, estimulando via tarifas diferenciadas a recarga dos veículos elétricos para períodos de demanda mais baixa.

CONCLUSÃO

O potencial de gerar valor oferecido pela Internet das Coisas ao setor elétrico é incontestável, mesmo considerando o seu perfil conservador, fruto de uma atividade intensiva em capital, forte regulação e uma evolução tecnológica relativamente lenta no passado, em comparação com outros setores já impactados pela era digital.

Essa onda de transformação já se faz presente no setor, ainda com velocidade e intensidade de impacto pontual no Brasil, mas com perspectivas de grandes mudanças. Há ainda a vantagem da observação do que ocorre em outros países para adequar as concessionárias brasileiras.

O nível de adoção de geração fotovoltaica distribuída já alcançou escala impressionante na Austrália. No Brasil, superamos a marca de 10 mil micro e mini geradoras fotovoltaicas distribuídas, o dobro da quantidade projetada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em sua NOTA TÉCNICA DEA 19/14, intitulada “Inserção da Geração Fotovoltaica Distribuída no Brasil”.

Estamos apenas engatinhando na adoção de veículos elétricos no Brasil, mas o cenário de adoção na Europa é extremamente arrojado, com a oferta de modelos por todas as grandes montadoras.

Algumas concessionárias brasileiras atingem marcas de centenas de milhares de consumidores de baixa tensão com telemedição, enquanto a comunidade europeia poderá ter, em 2020, dois terços de seu parque com medição inteligente.

Ignorar esse processo de transformação ou simplesmente não definir uma estratégia a respeito pode representar uma perda significativa de eficiência, produtividade e novas receitas.

Como em qualquer cenário de mudança iminente e relevante, o patrocínio da alta administração e a formalização de iniciativas de pesquisa e desenvolvimento, implementação de novas tecnologias, estímulo às startups e experimentação de novos modelos de negócio são fatores determinantes de sucesso, pois permitem explorar as possibilidades de forma organizada e aderente à realidade brasileira e ao contexto de cada empresa para geração de valor.

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